Nós, seres humanos, temos uma tendência intrigante: entender o outro como responsável pelo que faço, sinto e até, falo. Às vezes vociferamos: “Fiz isso porque você….” ou: “Eu tive que me defender porque você….” e assim por diante. Como ocorreu no paraíso, a culpa é sempre do outro e não gostamos de assumir a responsabilidade que nos fragiliza e aponta nossos próprios erros. Se a responsabilidade ou culpa são minhas, então precisarei mudar ou fazer algo a respeito.
Analogicamente a questão acima, ensinamos nossos filhos nessa direção também quando dizemos que estamos, por exemplo, muito tristes ou aborrecidos com o que eles fizeram e os tornamos culpados pelo que sentimos. Estou triste por sua causa e não os ajudamos a entender que cada um é responsável pelo seu próprio comportamento inadequado e, não, pelo que o outro sente. Nesse caso, somos responsáveis por ensinar a refletir e a pensar a respeito das coisas que nosso filho ou aluno faz.
É interessante que nós, humanos, nascemos com várias “funcionalidades” inatas e, mesmo sem ninguém nos ensinar, sabemos chorar quando dói e ficar tristes quando nos aborrecemos com algo. No entanto, as “funcionalidades” sociais são todas aprendidas pelo contato com outro ser humano. Isso quer dizer que precisamos aprender a nos comunicar, a fazer escolhas certas, a ter empatia, a recuar e dar espaço ao outro, a perdoar, a amar, a ter respeito e assim por diante, mas quem nos ensina isso, afinal?
Se aprendermos que os outros são responsáveis pelo que sinto, eu retiro o poder de transformar a mim mesmo em vista da minha realidade e coloco no outro esse fardo: faço isso por sua causa. Para além disso, tenho ouvido repetidas vezes que à escola cabe ensinar os conteúdos e, à família, educar, como se um e outro fossem coisas diferentes. Será que quando a escola usa esse argumento na realidade não está se eximindo de sua própria responsabilidade, solidária, junto à família e à criança. Se disser é mal educado, seria responsabilidade dos pais e, não sua, e não da criança. Será que colocar no outro a responsabilidade que também é minha me absolve do encargo de oportunizar experiências e amadurecimento socioemocional aos meus alunos? Acredito que não!
A comunidade, a família e a escola são responsáveis pela aprendizagem social. Acredito que muitos de nós conhecemos a frase: “Para educar uma criança é preciso uma aldeia”. Nesse caso, ninguém pode lavar as mãos. Afinal, a responsabilidade é minha e, cada um, precisa fazer a sua parte!



